Jovem denuncia assédio no Metrô: “Vou te segurar e te morder inteira”
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“Assim que ele se sentou eu já senti ele me observando. Me virei pro lado da janela e continuei olhando pro celular de fone de ouvido. Ouvi ele falando alguma coisa, mas como estava de fone não ouvi o que era. Ele continuou falando e me olhando, e eu senti ele aproximar sua perna da minha. Eu pausei a série e foi então que ouvi ele dizendo ‘olha como é metida ela, vou te segurar e te morder inteira. Gostosa’”.
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Assustada, Lorena explica que se levantou automaticamente. O abusador, contudo, seguiu com ofensas e termos inadequados.
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“Quando me levantei ouvi ele falando ‘já vai embora gostosinha?’. Me virei pra ele e falei bem alto pro vagão inteiro ouvir ‘o que você falou? O que você tá falando pra mim? Fala alto pra todo mundo ouvir’. Ele começou a rebater me chamando de louca. Várias vezes. ‘Você tá louca, tá louca, ela tá louca gente, ela tá louca’. E por um segundo eu me senti louca. Me afastei com lágrimas nos olhos e foi aí que um homem se aproximou e disse, ‘você precisa de ajuda?’. Eu falei que estava tudo bem, que só queria ir pra outro vagão, e ele me acompanhou. Uma menina da minha idade veio e sem falar nada me deu um abraço. Ficamos abraçadas por um tempão. Eu tremia de raiva”, pontua.
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O testemunho, que outra vez comprova o nível de machismo no Brasil, termina com um recado para os que ainda insistem na falácia maldosa de culpabilizar a vítima. “E pra quem falar que isso tem alguma coisa a ver com roupa, segue meu look do dia”.
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Lorena Anderáos ainda exalta o feminismo como ferramenta indispensável para o desenvolvimento da sociedade, principalmente na garantia da autonomia para que mulheres possam andar livres onde bem entenderem.
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“Esse tipo de coisa, os mini abusos do dia dia, ainda acontecem com a maioria das mulheres constantemente. E talvez eu tenha sido louca mesmo de não ficar quieta, de expor, de falar alto. Se fossem alguns anos atrás eu não teria falado nada. Mas hoje eu falei, e fui apoiada por homens e mulheres. Independente de lados políticos, independente deles e delas acreditarem ou não no feminismo. Eles me apoiaram, me defenderam e me protegeram. Isso é feminismo. Mesmo que essa palavra tenha se tornado um tipo de palavrão na nossa sociedade, nós temos que nos lembrar que é simplesmente isso. A base é essa: não é mais um segredo, agora todo mundo sabe. Eu não preciso mais ficar quieta”.
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Abusos crescem
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No primeiro trimestre de 2018, a incidência de abuso sexual no transporte público no Estado de São Paulo aumentou 9% em comparação com o mesmo período de 2017. Os números são da Secretaria de Estado da Segurança Pública obtidos pela Globo News por meio da Lei de Acesso à Informação.
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Apenas entre janeiro e março de 2018, 180 ocorrências foram computadas dentro do metrô, trens ou ônibus. 56% dos abusos sexais aconteceram entre 6h e 9h, no horário de pico da manhã, e 17h às 20h, no rush noturno.
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72% dos casos foram registrados como importunação ofensiva ao pudor. Apenas 28% formalizados como crime. A Secretária de Estado da Segurança Pública chegou a emitir nota justificando o critério.
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“Em relação ao fato da maioria dos casos serem registrados como importunação ofensiva ao pudor, importante ressaltar que os registros são realizados de acordo com o relato da vítima, cabendo ao delegado responsável analisar a situação. A grande diferença entre estupro e importunação ofensiva ao pudor é a presença ou não do constrangimento da vítima, mediante violência ou grave ameaça, para a prática do crime. No transporte público, em geral, a vítima percebe o ato quando este já está sendo praticado, portanto, na maioria dos casos não há ameaça ou violência”, finaliza.
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