Saiu no site REVISTA MARIE CLAIRE
Veja publicação original: Eu, Leitora: “Sofri estupro e abusos e hoje ajudo vítimas do mundo todo”
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Sabrina Bittencourt, de 38 anos, é a ativista social pelos direitos humanos que tem ajudado a denunciar os casos de estupro cometidos por João de Deus e também sofreu três abusos sexuais de pessoas da mesma religião que seguia, além de outro cometido por um desconhecido. Hoje mora fora do país com seus três filhos
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Por Sabrina Bittencourt em depoimento a Lu Angelo
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“Sofri abusos sérios por homens da mesma religião que eu frequentava na época: os mórmons. O primeiro aconteceu dos 4 aos 8 anos. Nada foi feito a respeito, muito embora tivéssemos levado o assunto às instâncias mais altas da igreja. Era um pediatra que abusava de mim, fazendo ‘exames nos genitais’ com a gente. Até que um dia minha mãe viu e ficou furiosa, tirou satisfação com ele. Minha tia o defendeu, dizendo que era algo ‘normal’. Ele nunca havia pedido autorização para os meus pais para isso.
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O outro caso foi de um menino que tinha quase 18 anos, eu 15, e era meu melhor amigo, em 1996. Meu pai o batizou logo depois da sua tentativa de estupro, pois o achava o ‘rapaz ideal, escoteiro, recém-convertido à religião, pronto para ser um excelente missionário’. Entrou numa barraca de camping que eu estava e tentou forçar sexo comigo. Ficou bastante agressivo quando eu neguei e passou os anos posteriores me difamando e caluniando na igreja para meus amigos.
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O terceiro, também aos 15 anos, foi numa viagem religiosa, dentro do ônibus de peregrinação em que a maioria eram jovens e senhoras (estavam meus irmãos mais novos e exclusivamente gente da igreja mórmon). Ele se sentou ao meu lado enquanto eu dormia e começou a lamber minha orelha, tocar nos meus seios. Acordei assustada, saí da poltrona e fui sentar lá na frente perto do bispo. Fiquei chorando a noite toda. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Somente após a viagem, consegui contar à minha mãe e demais líderes.
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Fiquei tão mal que viajei 3 mil quilômetros de Recife a São Paulo para ficar longe de tudo o que sofri. Quando voltei, 9 meses depois, sofri um estupro de um desconhecido, que estava armado com faca, me obrigou a subir na moto e me levou para um matagal, em Porto de Galinhas, Pernambuco, no momento em que eu estava prestes a pegar um ônibus para voltar para casa. À luz do dia, com 16 anos, em novembro de 1997.
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Lembro que enquanto ele me estuprava, dizia que tinha Aids e que eu também seria contaminada. Com aquela frase, eu morri ali mesmo. Parecia um vegetal. Depois, me colocou na garupa outra vez e disse que me levaria para um lugar mais afastado para me matar. Sua moto ía a 80 km/h na estrada principal e eu pensei: ‘ou pulo agora e tenho alguma chance de sobreviver ou deixo ele me matar’. Saltei da moto em movimento, rodei pela estrada, fiquei supermachucada e consegui sair correndo. Passou uma van de lotação no sentido contrário e comecei a gritar desesperada, me coloquei na frente deles, pensando que se morresse atropelada ainda seria melhor do que morrer na mão daquele monstro.
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O motorista conseguiu frear e entrei gritando pedindo para acelerar. Me levaram para a primeira das cinco delegacias que tive que prestar queixa. O delegado me encaminhou para a cidade seguinte, um pouco maior, e começou a via crucis. Policiais desconfiando porque eu dava muitas informações, o número da placa da moto, tentava não chorar, não era a típica vítima que eles estavam acostumados. Meu objetivo era dar o maior número possível de descrição dele com qualidade para que o prendessem em flagrante. Ele foi encontrado e preso em menos de 24h.
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Vários policiais tentavam protegê-lo porque ele estava delatando seus amigos traficantes numa operação que, para eles, era mais importante que o meu caso. Depois de passar por cinco delegacias, finalmente ele foi para a cadeia. Soube que faleceu lá dentro.
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Para mim, sempre foi muito pior os abusos com pessoas conhecidas e que tinham minha confiança, que do estuprador desconhecido. Era uma sensação de impotência, inadequação, vergonha, solidão, desamparo por homens e pelo ‘Deus’ a quem me foi ensinado acreditar.
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O pós disso tudo foi um terror noturno durante meses, pesadelos e depressão. Contraí várias doenças sexualmente transmissíveis e passei seis meses fazendo exames de HIV. Felizmente não contraí o vírus e não sei se realmente ele tinha essa doença ou só falou aquilo para eu desistir da vida. Passei por dois psiquiatras homens que o último delegado ‘sugeriu’ aos meus pais e ambos estavam mais interessados em saber onde chupou, como meteu ou qual posição do que me ajudar realmente. Mandei à merda os dois e joguei fora os antidepressivos.
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Não pude mais me relacionar com rapazes na época que faziam parte da mesma religião. Era considerada impura, uma vergonha para essa microssociedade. Acabei me casando com o pai do meu primeiro filho (que não era da igreja) e, portanto, o enxergava como ‘um salvador’… uma visão completamente distorcida, pela necessidade de ser aceita pelo masculino. O casamento durou 4 meses e anos de brigas e disputas pela guarda do meu primogênito, hoje com 16 anos.
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Depois me relacionei com algumas mulheres também, amigas, que até hoje mantenho uma ótima relação. Foi aí que comecei a sentir que era digna de ter um amor incondicional e puro. Então iniciei meu trabalho como ativista pelos direitos das mulheres, infância e grupos vulneráveis em geral como LGBTIQ.
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Em 2006 conheci o Rafa, pai dos meus filhos menores, de 9 e 7 anos, e nos casamos em 2007 em outro formato, mais aberto e sem regras pré-estabelecidas pela sociedade. Nos separamos em 2016, depois de 10 anos juntos, continuamos grandes amigos e revezamos nos cuidados com as crianças.
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Superei tudo isso criando projetos e negócios sociais, viajando muito, vendo o mundo e situações piores que a minha. Isso me impediu de ficar na condição de vítima. Entrei de cabeça no objetivo de ajudar essas pessoas que, como eu, sofreram abusos dentro de uma instituição religiosa e acredito numa justiça social em que toda a sociedade possa proteger a vida das pessoas, diminuir o poder de pessoas que se utilizam da fé para abusar, expondo-as publicamente de forma responsável.
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Sou sobrevivente, resiliente, passei por outros problemas de saúde derivados de todos os traumas (amnésia e agora estou tratando um câncer no sistema linfático). A superação é algo diário. Só consigo superar se sirvo as pessoas ou se ajudo a prevenir situações assim. Queremos mostrar que é possível superar os desafios da vida e recomeçar.”
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*Atualização do depoimento: Felipe Carvalho
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